domingo, 22 de junho de 2014

Dor e Coragem

Na Terra todos temos inimigos. Todos, sem exceção. Até Jesus os teve. Mas isso não é importante. Importante é não ser inimigo de ninguém, tendo dentro da alma a dúlcida presença do incomparável Rabi, compreendendo que o nosso sentido psicológico é o de amar indefinidamente.

Estamos no processo da reencarnação para sublimar os sentimentos. Por necessidade da própria vida, a dor faz parte da jornada que nos levará ao triunfo.

É inevitável que experimentemos lágrimas e aflições. Mas elas constituem refrigério para os momentos de desafio. Filhos da alma, filhos do coração!

O Mestre Divino necessita de nós na razão direta em que necessitamos d'Ele. Não permitamos que se nos aloje no sentimento a presença famigerada da vingança ou dos seus áulicos: o ressentimento, o desejo de desforçar-se, as heranças macabras do egoísmo, da presunção, do narcisismo. Todos somos frágeis. Todos atravessamos os picos da glória mas, também, os abismos da dor.

Mantenhamo-nos vinculados a Jesus. Ele disse que o Seu fardo é leve, o Seu jugo é suave. Como nos julga Jesus? Julga-nos através da misericórdia e da compaixão.

E o Seu fardo é o esforço que devemos empreender para encontrar a plenitude.

Ide de retorno a vossos lares e levai no recôndito dos vossos corações a palavra libertadora do amor. Nunca revidar mal por mal. A qualquer ofensa, o perdão. A qualquer desafio, a dedicação fraternal. O Mestre espera que contribuamos em favor do mundo melhor, com um sorriso gentil, uma palavra amiga, um aperto de mão.

Há tanta dor no mundo, tanta balbúrdia para esconder a dor, tanta violência gerando a dor, que é resultado das dores íntimas...

Eis que Eu vos mando como ovelhas mansas ao meio de lobos rapaces, disse Jesus. Mas virá um dia, completamos nós outros, que a ovelha e o lobo beberão a mesma água do córrego, juntos, sem agressividade.

Nos dias em que o amor enflorescer no coração da Humanidade, então, não haverá abismo, nem sofrimento, nem ignorância, porque a paz que vem do conhecimento da Verdade tomará conta de nossas vidas e a plenitude nos estabelecerá o Reino dos Céus.

Que o Senhor vos abençoe , filhas e filhos do coração, são os votos do servidor humílimo e paternal, em nome dos Espíritos-espíritas que aqui estão participando deste encontro de fraternidade.

Muita paz, meus filhos, são os votos do velho amigo,

Bezerra.

Psicofonia de Divaldo Pereira Franco, em 25 de setembro de 2011, na Creche Amélia Rodrigues, em Santo André – SP.

domingo, 1 de junho de 2014

Os vários sentidos da palavra razão

Em nossa vida cotidiana usamos a palavra razão em muitos sentidos. Dizemos, por exemplo, “eu estou com a razão”, ou “ele não tem razão”, para significar que nos sentimos seguros de alguma coisa ou que sabemos com certeza alguma coisa. Também dizemos que, num momento de fúria ou de desespero, “alguém perde a razão”, como se a razão fosse alguma coisa que se pode ter ou não ter, possuir e perder, ou recuperar, como na frase: “Agora ela está lúcida, recuperou a razão”.

Falamos também frases como: “Se você me disser suas razões, sou capaz de fazer o que você me pede”, querendo dizer com isso que queremos ouvir os motivos que alguém tem para querer ou fazer alguma coisa. Fazemos perguntas como: “Qual a razão disso?”, querendo saber qual a causa de alguma coisa e, nesse caso, a razão parece ser alguma propriedade que as próprias coisas teriam, já que teriam uma causa.

Assim, usamos “razão” para nos referirmos a “motivos” de alguém, e também para nos referirmos a “causas” de alguma coisa, de modo que tanto nós quanto as coisas parecemos dotados de “razão”, mas em sentido diferente.

Esses poucos exemplos já nos mostram quantos sentidos diferentes a palavra razão possui: certeza, lucidez, motivo, causa. E todos esses sentidos encontram-se presentes na Filosofia.

Por identificar razão e certeza, a Filosofia afirma que a verdade é racional; por identificar razão e lucidez (não ficar ou não estar louco), a Filosofia chama nossa razão de luz e luz natural; por identificar razão e motivo, por considerar que seres racionais e que nossa vontade é racional; por identificar razão e causa e por julgar que a realidade opera de acordo com relações causais, a Filosofia afirma que a realidade é racional.

É muito conhecida a célebre frase de Pascal, filósofo francês do século XVII: “O coração tem razões que a razão desconhece”. Nessa frase, as palavras razões e razão não têm o mesmo significado, indicando coisas diversas. Razões são os motivos do coração, enquanto razão é algo diferente de coração; este é o nome que damos para as emoções e paixões, enquanto “razão” é o nome que damos à consciência intelectual e moral.

Ao dizer que o coração tem suas próprias razões, Pascal está afirmando que as emoções, os sentimentos ou as paixões são causas de muito do que fazemos, dizemos, queremos e pensamos. Ao dizer que a razão desconhece “as razões do coração”, Pascal está afirmando que a consciência intelectual e moral é diferente das paixões e dos sentimentos e que ela é capaz de uma atividade própria não motivada e causada pelas emoções, mas possuindo seus motivos ou suas próprias razões.

Assim, a frase de Pascal pode ser traduzida da seguinte maneira: Nossa vida emocional possui causas e motivos (as “razões do coração”), que são as paixões ou os sentimentos, e é diferente de nossa atividade consciente, seja como atividade intelectual, seja como atividade moral.

A consciência é a razão. Coração e razão, paixão e consciência intelectual ou moral são diferentes. Se alguém “perde a razão” é porque está sendo arrastado pelas “razões do coração”. Se alguém “recupera a razão ” é porque o conhecimento intelectual e a consciência moral se tornaram mais fortes do que as paixões. A razão, enquanto consciência moral, é a vontade racional livre que não se deixa dominar pelos impulsos passionais, mas realiza as ações morais como atos de virtude e de dever, ditados pela inteligência ou pelo intelecto.

Além da frase de Pascal, também ouvimos outras que elogiam as ciências, dizendo que elas manifestam o “progresso da razão ”. Aqui, a razão é colocada como capacidade puramente intelectual para conseguir o conhecimento verdadeiro da Natureza, da sociedade, da História e isto é considerado algo bom, positivo, um “progresso”.

Por ser considerado um “progresso”, o conhecimento científico é visto como se realizando no tempo e como dotado de continuidade, de tal modo que a razão é concebida como temporal também, isto é, como capaz de aumentar seus conteúdos e suas capacidades através dos tempos.

Algumas vezes ouvimos um professor dizer a outro: “Fulano trouxe um trabalho irracional; era um caos, uma confusão. Incompreensível. Já o trabalho de beltrano era uma beleza: claro, compreensível, racional”. Aqui, a razão, ou racional, significa clareza das ideias, ordem, resultado de esforço intelectual ou da inteligência, seguindo normas e regras de pensamento e de linguagem.

Todos esses sentidos constituem a nossa ideia de razão. Nós a consideramos a consciência moral que observa as paixões, orienta a vontade e oferece finalidades éticas para a ação. Nós a vemos como atividade intelectual de conhecimento da realidade natural, social, psicológica, histórica. Nós a concebemos segundo o ideal da clareza, da ordenação e do rigor e precisão dos pensamentos e das palavras.

Para muitos filósofos, porém, a razão não é apenas a capacidade moral e intelectual dos seres humanos, mas também uma propriedade ou qualidade primordial das próprias coisas, existindo na própria realidade. Para esses filósofos, nossa razão pode conhecer a realidade (Natureza, sociedade, História) porque ela é racional em si mesma.

Fala-se, portanto, em razão objetiva (a realidade é racional em si mesma) e em razão subjetiva (a razão é uma capacidade intelectual e moral dos seres humanos). A razão objetiva é a afirmação de que o objeto do conhecimento ou a realidade é racional; a razão subjetiva é a afirmação de que o sujeito do conhecimento e da ação é racional. Para muitos filósofos, a Filosofia é o momento do encontro, do acordo e da harmonia entre as duas razões ou racionalidades.

Autora: Marilena Chaui

domingo, 11 de maio de 2014

Dia das mães

Todos os dias pertencem às mães. Nada obstante, em 1905, quando desencarnou a genitora de Anna Jarvis, uma americana da Virgínia, ela entrou em depressão, e as amigas resolveram ajudá-la a superar a perda. Em 1907 ela criou um memorial em homenagem à genitora e teve a ideia de criar o Dia das Mães. A ideia espalhou-se e terminou por tomar conta de toda a América do Norte a partir de 26 de abril de 1910.

Com o tempo universalizou-se, sensibilizando a opinião da sociedade que passou a reservar um dia no ano para homenagear esse ser especial que representa a docilidade, a mansidão, o sacrifício e a dedicação infinita.

Existem, sim, mães que não conseguiram vivenciar a grandeza da missão terrena, tornando-se negligentes, indiferentes e até mesmo perversas, mas constituem exceção. Todos mantemos recordações inapagáveis da convivência com a mãezinha na infância, na adolescência e mesmo as buscamos com ternura na idade adulta.

Elas são os anjos tutelares da vida humana, sempre dispostas ao esforço até super-humano em favor da felicidade dos filhos. Não poucas renunciam à própria alegria de viver, aos prazeres, a fim de cuidar dos rebentos carnais com que a Divindade lhes honra a existência luminosa.

Com a divulgação contínua desse sentimento de gratidão que devem ter todos os filhos, lentamente, o que deveria ser um verdadeiro culto de amor transformou-se em lucrativo empreendimento de frivolidade, retirando-lhe o de que mais belo existia no ideal de Anna Jarvis.

A celebração da data que, no Brasil, é comemorada no segundo domingo de maio, reveste-se de festividade externa, da doação de presentes de fácil aquisição, de exibição de mercado, sem a companhia do amor que deve ser a razão principal da efeméride. É lamentável a ocorrência, porque destituída de significado.

O amor é a mais dignificante dádiva que se deve conceder a esse nobre ser, sem a preocupação de oferecer-lhe as coisas materiais, embora também se possa assim proceder.

Divaldo P. Franco para o Jornal A Tarde em 08/05/2014

domingo, 27 de abril de 2014

Distúrbios e Paz

Somando-se à violência que se tornou o cotidiano de todos nós, estamos vivendo em nosso estado momentos difíceis de serem suportados. Em razão da greve de Polícia Militar, fomos, mais uma vez, surpreendidos com a agressividade por parte da população, que ultrapassou os lamentáveis acontecimentos de há dois anos... O que mais surpreende, no entanto, é constatar a dificuldade do ser humano de ser pacífico, de respeitar as direitos alheios, de manter a dignidade quando se apresenta uma situação crítica.

Pessoas aparentemente sociáveis, considerando a impunidade reinante e a falta de policiamento para a defesa do cidadão que paga impostos para ter garantidos os seus direitos, são tomadas de fúria e saqueiam supermercados e lojas, carregando tudo quanto lhes não pertence, permitindo-se praticar hediondos crimes outros, como latrocínios, homicídios, agressões... E como se isso não bastasse, ante a impossibilidade de roubar tudo quanto os olhos abarcam, incendeiam as casas comerciais, numa fúria selvagem.

Movimentam-se as pessoas ponderadas para solicitar preservação dos seus direitos de cidadania, enquanto a chacota e a roubalheira tornam-se públicas, diante dos veículos da mídia, copiando aquela outra, não menos vergonhosa, que se passa em alguns gabinetes governamentais, conforme denuncia a imprensa a todo momento.

Vive-se, realmente, um grave momento em nosso país e no mundo, quase na sua generalidade, em que o brutamontes e o astuto dão-se as mãos para a prática hedionda do crime nas suas mais variadas expressões. Quanta falta nos fazem a ética e a moral, conforme preconizadas por Jesus, especialmente numa sociedade que, aparentemente, lhe cultua a memória e participa de cultos que lhe são dedicados por diferentes seguimentos religiosos! O medo toma conta das pessoas de boa formação moral em razão da insegurança que grassa desarvoradamente. É necessário que restabeleçamos a paz social e a verdadeira fraternidade que devem viger em toda parte.

Artigo de Divaldo Franco publicado dia 24/04/2014 no jornal A Tarde.

domingo, 30 de março de 2014

Quem és tu?


Ainda ontem pensava que não era
mais do que um fragmento trémulo sem ritmo
na esfera da vida.

Hoje sei que sou eu a esfera,
e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.

Eles dizem-me no seu despertar:
" Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia
sobre a margem infinita
de um mar infinito."

E no meu sonho eu respondo-lhes:
"Eu sou o mar infinito,
e todos os mundos não passam de grãos de areia
sobre a minha margem."

Só uma vez fiquei mudo.
Foi quando um homem me perguntou:

"Quem és tu?"

Autor: Kahlil Gibran

domingo, 16 de março de 2014

Amai-vos...

Amai-vos um ao outro,
mas não façais do amor um grilhão.

Que haja, antes, um mar ondulante
entre as praias de vossa alma.

Enchei a taça um do outro,
mas não bebais da mesma taça.

Dai do vosso pão um ao outro,
mas não comais do mesmo pedaço.

Cantai e dançai juntos,
e sede alegres,

mas deixai
cada um de vós estar sozinho.

Assim como as cordas da lira
são separadas e,
no entanto,
vibram na mesma harmonia.

Dai vosso coração,
mas não o confieis à guarda um do outro.

Pois somente a mão da Vida
pode conter vosso coração.

E vivei juntos,
mas não vos aconchegueis demasiadamente.

Pois as colunas do templo
erguem-se separadamente.

E o carvalho e o cipreste
não crescem à sombra um do outro.

Autor: Gibran Kahlil Gibran