Mostrando postagens com marcador Jean-Yves Leloup. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jean-Yves Leloup. Mostrar todas as postagens

domingo, 5 de janeiro de 2014

O Olhar Integral

No coração da sombra existe a luz. E no coração da luz existe a sombra.
A experiência do ser é a experiência do círculo que mantém os dois juntos.
O momento de repouso que fazemos é semelhante à nossa respiração.
O inspirar e o expirar é uma não-dualidade. Se só inspiramos, sufocamos, se só expiramos, morremos.

O sopro contem a inspiração e a expiração e o que é verdadeiro em nossa vida fisiológica é também verdadeiro em nossa vida psicológica.

Tornar-se adulto é passar da idade dos contrários para a idade do complementar, para um outro modo de olhar as coisas. Se alguém diz algo contrário ao que penso e sou capaz de entender esse contrário como complementar, vou crescer em consciência e em compreensão. Se em vez de rejeitar ou negar alguns elementos de minha vida obscura, sou capaz de acolhê-los, torna-me-ei mais inteiro.

A sombra é o que dá relevo à luz.

Quando amamos alguém, um dos sinais de amor verdadeiro é que amamos os seus defeitos. É fácil amar os defeitos de nossos filhos. É difícil amar os defeitos dos adultos ou de nossos cônjuges.

Esse amor de que falamos não significa complacência, não é dizer ao outro que me agrada o que ele tem de desagradável, pois isso seria mentira e hipocrisia.

O amor de que falamos é dar ao outro o direito de ser diferente. É dar a ele o direito de experimentar sua liberdade. De experimentar em mim mesmo esta capacidade de amar o que é amável e de amar, também, o que não é amável. Dessa maneira passaremos, de uma vida submissa para uma vida escolhida.

Nossa vida vale pelo olhar que é posto nela. Os olhares de juiz nos enchem de culpa. Há olhares benevolentes, misericordiosos e ao mesmo tempo, justos. Precisamos desses olhares porque todos nós temos necessidade de verdade e de sermos amados. Por vezes, os olhares que encontramos são muito amorosos, muito doces, mas falta a eles a exigência desta verdade.

Outras vezes, os olhares que se colocam sobre nós são plenos de verdade e justiça, mas falta a eles a misericórdia e o amor.

Há um olhar integral do qual temos necessidade a fim de nos vermos tal e qual somos. Porque a verdade sem amor é inquisição e o amor sem verdade é permissividade.

Estas são reflexões gerais e cada um pode entrar em particularidades que lhes são próprias, sentindo se existe em sua vida alguém que pode suportar sua sombra sem julgá-la, apesar de não se mostrar complacente com ela.

Creio que todos nós temos a necessidade, pelo menos uma vez em nossas vidas, de um tal olhar pousado sobre nós.

Nesse momento não teremos mais necessidade de mentir, de nos iludirmos, de usarmos máscaras.

Podemos mostrar nossa verdadeira face, nosso verdadeiro corpo, com seus desejos e seus medos.

Podemos mostrar nossa verdadeira inteligência com seus conhecimentos e suas ignorâncias.

Mostrar-se com o coração verdadeiro, capaz de muita ternura e também capaz de dureza e indiferença.

Mostrar-se como não-perfeito, mas aperfeiçoável.

Sob este olhar nossa vida pode crescer. Porque o olhar que nos julga e nos aprisiona em uma imagem faz-nos ficar parados, enquanto que o outro olhar nos impulsiona a dar um passo adiante desta imagem que os outros têm de nós."

Autor: Jean Yves Leloup em "Além da Luz e da Sombra"
Disponível em: http://ventosdepaz.blogspot.com.br/2013/04/o-olhar-integral-jean-yves-leloup.html

domingo, 23 de setembro de 2012

A Arte de Morrer

O mundo que nos rodeia não nos ensina a morrer. Tudo é feito para esconder a morte, para incitar-nos a viver sem pensar nela, em termos de um projeto, como se estivéssemos voltados para objetivos a serem alcançados e apoiados em valores de efetividade. Tampouco nos ensina a viver. No máximo a ter êxito na vida, o que não é a mesma coisa. Trata-se de “fazer”, de “ter” cada vez mais, em uma corrida desenfreada em busca de uma felicidade material a respeito da qual acabamos por perceber, mais cedo ou mais tarde, não ser suficiente para conferir um sentido às nossas existências. Assim, às vezes ouvimos da boca de agonizantes revoltados, amargurados, o derradeiro lamento por terem passado ao largo do essencial. Não é necessário ser particularmente religioso para sentir que não estamos nesta terra para passar nossa vida a produzir e consumir.

Em uma das suas conferencias sobre a experiência da morte, o padre Maurice Zundel formulava a questão nestes termos: O que fazemos da nossa vida? Estamos à procura de nós mesmos, fugimos de nós, reencontramo-nos de forma intermitente e nunca chegamos a fechar o círculo, a definir-nos a nós próprios, a saber quem somos... Não temos tempo, a vida passa tão depressa, estamos absorvidos pela preocupações materiais ou por diversões... e, finalmente, a morte chega e é em sua presença que tomamos consciência de que a vida poderia ter sido algo de imenso, de prodigioso, de criador. Mas já é tarde demais... e a vida só adquire todo o seu relevo no imenso desgosto de uma coisa inacabada. É, então, que a morte, justamente porque a vida ficou inacabada, aparece como um sorvedouro.

Onde é que, atualmente, a questão do sentido poderá expressar-se? Onde poderá encontrar a resposta?

Todo homem confrontado com a iminência da morte pode ser levado a formular-se questões de ordem espiritual (qual é o sentido da minha vida? Haverá uma transcendência? O que acontecerá ao meu ser?). Como é grande a solidão quando não conseguimos expressar tais questões, compartilha-las com os outros! Estaremos prontos para escutá-las? O que dizer, como proceder perante o absurdo do luto, o desgosto, o desespero? O que responder àqueles que perguntam por que? Àquele que – entrevado, dependente, com o corpo deteriorado – pergunta a si mesmo que sentido poderá ter a prolongação da vida?

Autor: Jean- Yves Leloup

domingo, 15 de julho de 2012

Entrevista com Jean-Yves Leloup - De onde vem a Paz

- Vivemos um momento mundial de crise e conflito, com guerras, atentados, solidão, miséria, abandono. Diante disso, o senhor é pessimista ou otimista?

Sou realista. Acredito que essa época nos desafia a ficarmos lúcidos, a recusar todas as ilusões, porém sem perder a noção de que as mais sublimes qualidades sagradas - o amor, a esperança, a ternura, a compaixão - habitam cada um de nós, mesmo os que vivem nas condições mais desfavoráveis. A transformação do mundo começa pela transformação do ser humano por meio da educação e de uma visão global. Isto é, a todo instante, a cada escolha, temos de ter consciência de que tudo está interligado, que não se pode arrancar um tufo de grama aqui sem incomodar a estrela que está a milhares de quilômetros no céu, acima de nós.

- Como é possível perder as ilusões e não desesperar?

Vivendo no momento presente. Num dos encontros que tive com o Dalai-Lama, perguntei a ele o que é o nirvana e ele me respondeu: "É ver as coisas como elas são". A mesma sabedoria é encontrada no Evangelho em que Jesus dizia: "Isto é, isto é", nos convidando a viver sem acrescentar adjetivos, sem nos iludirmos, mas encarando o que está diante de nós como incentivo para seguir. Não podemos ficar apegados ao que queremos ver, m as enxergar bem a realidade, mesmo a mais cruel, como ponto de partida para ir mais longe.

- Para viver no presente, é preciso prestar atenção. Esse é justamente o tema do seu livro A Arte da Atenção (Editora Verus). Mas a maioria de nós é desatenta em relação às outras pessoas, a si mesmo, ao que está ao redor...

A atenção é a união do coração com a inteligência. A falta dessa conexão é o sinal mais concreto de que algo se quebrou na essência do ser humano. As causas são múltiplas - o estresse, o excesso de informação e de barulho são algumas delas. E de novo a atenção é o jeito de sair dessa roda-viva e de estar mais equilibrado.

- Como isso é possível?

Primeiro, estimulando os cinco sentidos: tato, olfato, audição, visão, paladar. Tocar, andar descalço, sentir a terra é uma das infinitas formas de fazer com que a mente, o corpo e as emoções estejam presentes no mesmo lugar, no mesmo instante. Depos, é preciso usar os sentidos para perceber o que está além deles - por exemplo, sentir que o silêncio faz parte da música, o que é dito nas entrelinhas, o que é invisível e tão concreto como a fé ou o amor. Assim é possível estar aberto a uma percepção mais verdadeira de tudo o que nos cerca.

- Por falar em amor, estamos numa era marcada pelo desencontro entre homens e mulheres, pelo conflito nas relações e pela solidão. Como é possível reverter isso?

De novo, a resposta é: pelo caminho da atenção. Só com ela, e não com a ilusão, podemos reconhecer que a outra pessoa existe e que não vai corresponder completamente à imagem que eu espero dela. Um dos dramas do homem contemporâneo é a perda da conexão com o coração. O sexo foi desconectado do sentimento, e isso causa muita nostalgia e desconforto. Amar supõe maturidade para não consumirmos o outro como um objeto de prazer, como se fôssemos grandes bebês, sugando matrizes de afeto.

- Mas, acredito, nada orientado por esse senso de satisfação imatura pode ser confundido com o amor.

Começa por aí, a criança ama sua mãe e a come. O que é bonito num bebezinho é menos apreciável em pessoas de 30, 40, 50 anos, não é?

- O que o senhor diria para quem está vivendo uma crise conjugal ou a solidão?

Para amar, temos de reconhecer que nós não sabemos amar, que é preciso experiência de uma vida inteira para aprender isso. E também conhecer a si mesmo, estar sozinho sem tristeza ou ansiedade.

- Então, fazer um pouco de silêncio por dia já ajudaria?

Isso não é apenas bom, mas necessário. O homem não vive apenas de pão. Vive também de ternura e desse alimento do ser profundo que é o silêncio. Por meio dele, podemos diminuir as expectativas sempre frustradas de que o amante (ou tudo ao seu redor) vá preencher nossas lacunas. Além disso, antes de amar alguém é preciso se aceitar e reconhecer os próprios limites. Não há amor sem humildade. No Cântico dos Cânticos, uma ode ao amor, escrita por Salomão, no Velho Testamento, o Bem-Amado diz à Bem-Amada: "Se não fores quem tu és, como poderemos nos encontrar?"

- E quanto às nossas tantas ilusões a respeito do par perfeito, dos encontros cinematográficos. Elas não são um vício?

Sim, acredito que produzimos muitas ilusões, desilusões e sofrimentos porque temos uma imagem idealizada do homem, da mulher, do romance. Isso impede o encontro real, verdadeiro.

- O senhor afirma que a paz no mundo depende de que ela exista entre homens e mulheres. Por que?

Em hebraico, a palavra paz é shalom, que significa ser inteiro. Nós não estamos em paz porque não somos inteiros. Muitas vezes a cabeça quer dominar tudo, desconfia do coração e dos sentidos. Algumas vezes é o sexo que sobe à cabeça e se sobrepõe à razão e ao sentimento. Não é fácil essa integração, mas podemos tentar juntar a intuição e a razão, qualidades masculinas e femininas, trabalho e descanso em nossas rotinas.

- O que perdemos quando o sexo é dominado pela razão?

A chance de aproveitar a intimidade de forma mais plena e sagrada. O Evangelho escrito por Felipe, apóstolo do Cristo, fala do sexo como a mais profunda comunhão do sopro divino, que resulta na fecundação, na possibilidade de uma nova vida. E isso não tem nada a ver com pecado, culpa ou jogo de poder. O famoso Kama Sutra - tratado sexual indiano, escrito cerca de 300 anos antes de Cristo - foi censurado pela Igreja, porém, em vez de suprimir desenho com as posições de cópula, o que foi omitido da versão original foram, justamente, os textos sagrados que acompanhavam cada imagem e foram julgados como profanos. E hoje, décadas depois da Revolução Sexual, podemos ter mais liberdade, no entanto, ainda não encaramos o sexo como um ritual divino - e isso também é fundamental para reconquistar a inteireza de corpo, mente e coração.

- Temos mais medo da vida ou da morte?

Temos medo de amar, pois, se amamos, arriscamos a vida. O medo de morrer é proporcional ao medo de viver. Alguém que não tem medo de viver, sobretudo, alguém que não tem medo de amar, não tem medo de morrer.

- Pensar em morrer já dá medo!

Aquele que tem consciência da morte é maior que a morte e não vítima dela. Apenas aquele que tem consciência da doença pode buscar a cura. O LIvro Tibetano dos Mortos ensina a ver a morte como uma ocasião de despertar, não somente para ele, mas para os que continuam vivos. Nessa atitude, o ser humano torna o dom da vida mais forte que a morte.

- O senhor acredita em milagres?

Santo Agostinho (354-430) dizia: "Os homens se surpreendem porque o Cristo transformou água em vinho. Mas vejam, é isso que faz a vinha todos os anos. Se surpreendem porque o Cristo ressuscitou os mortos. Mas perceba que há 30 anjos não estavas nem vivo." Isso quer dizer que somos tão cegos diante dos milagres do quotidiano que precisamos de fatos extraordinários para despertar. Mas, se soubermos ver o que vemos, tudo será milagre. Estar vivo para experimentar mais um dia é um milagre e não algo banal. Isso fica mais claro nas palavras de santa Tereza d'Ávila (1515-1582): "No dia em que as panelas da cozinha forem tão sagradas quanto os vasos dos altares, o sagrado estará na Terra e em cada gesto do quotidiano."

Revista Bons Fluidos (Brasil) - Dezembro 2002