domingo, 29 de abril de 2012

Paraíso da alma

Haverá, porventura, paraíso?
céu de repouso, ventura sem fim,
paz e harmonia, suave melodia,
anjos, arcanjos, querubins.


Após a dor, então, oh, Esperança
Deus, em Sua justeza,
nos confirmará a certeza
que o pranto derramado
há de ser compensado.



Sim, Paraíso há!
Dos desafios superados,
da fé inquebrantável,
da entrega às Suas leis...



Vem pois, coração querido,
descansar no regaço amigo
do paraíso da alma...
Do pranto da depuração
à doce paz da sublimação...

Autor: Limiro Besnosik (inspiração do espírito Tamaracá)

domingo, 22 de abril de 2012

A constituição do campo das religiões afro-brasileiras.

No campo das religiões afro-brasileiras, o candomblé se constitui em uma das vertentes mais destacadas na área urbana do Brasil. Organizado em um sistema simbólico, que funciona como um princípio de estruturação de uma experiência de ação intra-mundana e produz um ethos “enquanto sistema de esquemas implícitos de ação e de apreciação” (ibd; 146).

Com base em Weber, Bourdieu argumenta que o processo de racionalização religiosa envolve a transformação do ethos implícito em ética - conjunto sistemático e racional de normas explícitas. A ação pedagógica do sistema de crença afro-brasileiro é norteada pela tradição oral de transmissão e preservação dos preceitos sagrados. Entretanto, também podemos observar no candomblé um trabalho crescente de racionalização desenvolvido por uma camada de intelectuais interna à própria religião que orienta todo o pensamento do grupo. Constituindo cada vez mais para a transformação do ethos em ética, no sentido que Weber dá ao termo.

O campo religioso tem por função específica satisfazer um tipo particular de interesse, isto é, o interesse religioso que leva os leigos a esperar de certas categorias de agentes mediadores na experiência religiosa, que realizem ações mágicas ou religiosas, ações, fundamentalmente, “mundanas” e práticas, conduzidas com a finalidade de que tudo corra bem para o corpo de fieis, que aderem a um sistema de crenças e a um estilo de vida particular.

As religiões afro-brasileiras, em particular os candomblés, se constituíram como um empreendimento de diversos agentes religiosos, que resultou na formação de um corpo de sacerdotes responsáveis pela sistematização de um ethos religioso calcado nas diversas tradições africanas. Esse corpo de especialistas detentores de um capital religioso, com um domínio prático dos esquemas de pensamento e normas e conhecimentos está incumbido de reproduzir o capital religioso.

Os pais e mães-de-santo dos terreiros de candomblé são reconhecidos como detentores exclusivos de um monopólio na gestão dos bens sagrados. Detentores de um domínio prático de um conjunto de esquemas de pensamento, somados a presença de traços africanos, em maior ou menor intensidade, passaram esses traços diacríticos a funcionar como elementos definidores de suas legitimidades e competências, necessários à produção e reprodução de um corpo deliberadamente organizado de conhecimentos esotéricos e secretos. Suas autoridades são inquestionáveis no âmbito mítico-ritual, seus perfis de liderança são desenvolvidos na dinâmica concreta dos seus terreiros, pela sua capacidade de manter a estabilidade, controlar os conflitos, de garantir o recrutamento contínuo e evitar a deserção dos membros e da clientela, processo que consolida e a prova sua legitimidade pela competência em administrar os bens sagrados.

É o pai ou mãe-de-santo que os fieis vêem como a “âncora” ou o “porto seguro” contra os perigos do universo das aflições. Os seus sucessos e fracassos vão lhes conferindo uma identidade, atribuindo uma identidade aos terreiros que administram, enquanto uma entidade reconhecida no campo religioso, que revela o resultado de suas decisões e ações, mediatizados pela rede de relações e circunstâncias que poucas vezes chegarão a controlar completamente. Desta maneira, o sacerdote e o terreiro se identificam, pois os destino de ambos estão interligados (Bruman & Martinez;1991:150).

A constituição do campo religioso afro-brasileiro implica um primeiro corte entre os detentores do controle dos bens religiosos- iyalorixás e babalorixás – e aqueles que lhes são subordinados: os abiã, iawô, egbomi, ekedes e ogãs e a clientela. Segundo Weber (1991), os sacerdotes sistematizam o conteúdo da promessa profética ou das tradições sagradas no sentido da estruturação racional-causuística e da adaptação destas aos costumes mentais ao estilo de vida de sua própria camada e daquela dos leigos por eles dominados (1991:315), processo este que é marcado por uma dinâmica de poder envolvendo alianças e negociações e por vezes conflitos abertos.

Os responsáveis pela formação e consolidação das “roças” foram uma camada religiosa, liderada pelas Iyás (mães, zeladoras) e Babás (pais) auxiliados por uma confraria hierarquizada, constituindo um corpo de especialistas socialmente reconhecidos entre os escravos e libertos, nos meados do século XIX.

Esses indivíduos se destacaram pelo seu carisma e pela posição que alguns deles ocupavam na estrutura religiosa na África; no Brasil passaram a ser reconhecidos como detentores exclusivos de uma competência, necessária a produção/reprodução e difusão do sistema de crença africano, transformado em afro-brasileiro.

O campo das religiões afro-brasileiras, em particular aquele conformado pelos terreiros de candomblé foi organizado, inicialmente, de forma cooperativista, tecendo alianças entre as etnias, que muitas vezes eram rivais historicamente no continente africano, existindo no interior dessas comunidades uma permanente ajuda mútua, trocas de favores, mantendo-se assim uma solidariedade via teias de prestações e contraprestações que terminaram “por engendrar relações mais próximas, contatos mais efetivos e afetivos, muitas vezes consolidados pelo estabelecimento de laços religiosos duradouros” (Braga;1995:60).

Essas redes de relações entre os agentes religiosos levaram a criação de organizações conventuais, estruturadas em normas e padrões étnicos, manipulando determinados sinais diacríticos (língua, culinária, sistema mitológico, rituais, etc.,), em oposição a outros sistemas de crenças, oriundos do continente africano e dos índios brasileiros.

Essas organizações conventuais são os terreiros ou roças de candomblé. São instituições resultantes da manipulação dos traços identitários das civilizações africanas que se organizaram em nações, aqui no Brasil. Desse modo, a nação não é apenas a procedência territorial (Costa Lima;1997: 77-8), mas sim todo um conjunto de padrões ideológicos e rituais.

Se o tráfico de escravos foi um fator de desagregação étnica, paradoxalmente, foi também um componente da construção de novas identidades e novas tradições na América. Essas identidades chamadas de nação adquiriram um uso suficientemente amplo para integrar diversas tradições, funcionando como uma rede, ou melhor, constituindo uma teia de alianças. O terreiro passou a condensar os valores de uma África mítica. Isso significa dizer que os Orixás na África pertenciam a localidades (grupos étnicos) diferentes e transplantados para o Brasil passam a se concentrar no mesmo território.

O terreiro (egbé) é o espaço físico impregnado de signos que revelam a consciência ancestral, não sendo apenas uma área delimitada geometricamente. No terreiro estão presente as representações do aiyé (terra) e do orum (espaço transcendental), representado nos assentamentos dos Orixás e Eguns, Exu e Caboclos. Decerto, o terreiro é o lugar pertinente a manipulação de símbolos pelos fieis que partilham uma socialização calcada na herança, conjunto de bens simbólicos que se recebeu dos ancestrais.

E foi o terreiro o expediente mais eficaz na manutenção de uma tradição re-semantizada e resimbolizada. Os terreiros de candomblé organizados enquanto uma comunidade com características próprias de área verde, representando a floresta sagrada, o barracão, salão principal das festas públicas com espaços delimitados aos membros efetivos da casa e à assistência, as áreas sagradas destinadas à iniciação e reclusão dos neófitos, as casas dos Orixás, como pode ser visto atualmente, se constituíram como informa a literatura etnográfica afro-brasileira (Carneiro, 1948; Costa Lima, 1977) no primeiro quartel do século XIX. Como nota Serra (1995:33) os cultos afros já eram realizados há bastante tempo e a indicação de uma faixa temporal, por certo, se refere à criação de um modelo de culto dominante.

Autor: Fábio Lima (professor, escritor e meu amigo!!)

domingo, 15 de abril de 2012

Obesidade Mental

Significado de sensaboria: s. f. Fam. Ato ou acontecimento desinteressante, sem atrativos; insipidez.
*Prof. Andrew Oitke *

"O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades."

O professor Andrew Oitke publicou o seu polêmico livro "Mental Obesity", que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais em geral.

Nessa obra, o catedrático de Antropologia em Harvard introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o pior problema da sociedade moderna.

"Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada. Está na altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação e conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses."

Segundo o autor, a nossa sociedade está mais atafulhada de preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que de hidratos de carbono. As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas. Todos têm opinião sobre tudo, mas não conhecem nada.

Os cozinheiros desta magna "fast food" intelectual são os jornalistas e comentadores, os editores da informação e filósofos, os romancistas e realizadores de cinema. Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as revistas e romances são os donuts da imaginação.

O problema central está na família e na escola. Qualquer pai responsável sabe que os seus filhos ficarão doentes se comerem apenas doces e chocolate.

Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados, videojogos e telenovelas. Com uma "alimentação intelectual" tão carregada de adrenalina, romance, violência e emoção... é normal que esses jovens nunca consigam depois uma vida saudável e equilibrada.

Um dos capítulos mais polêmicos e contundentes da obra, intitulado "Os Abutres", afirma: "O jornalista alimenta-se hoje quase exclusivamente de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, de restos mortais das realizações humanas. A imprensa deixou há muito de informar, para apenas seduzir, agredir e manipular."

O texto descreve como os repórteres se desinteressam da realidade fervilhante, para se centrarem apenas no lado polêmico e chocante. Só a parte morta e apodrecida da realidade é que chega aos jornais. Outros casos referidos criaram uma celeuma que perdura.

O conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades. Todos sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy. Todos dizem que a Capela Sistina tem teto, mas ninguém suspeita para que é que ela serve. Todos acham que Saddam é mau e Mandella é bom, mas nem desconfiam por que. Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que é um cateto.

As conclusões do tratado, já clássico, são arrasadoras. Não admira que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes realizações do espírito humano estejam em decadência. A família é contestada, a tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se, o folclore entrou em queda, a arte é fútil... paradoxal ou doentia. Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, o egoísmo.

Sensaboria: pra quem, como eu, não sabia o significado. Ato ou acontecimento desinteressante, sem atrativos; insipidez.

Não se trata de uma decadência, uma "idade das trevas" ou o fim da civilização, como tantos apregoam. É só uma questão de obesidade. O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e sentimentos. O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento, progressos. Precisa, sobretudo, de "Dieta Mental."

Dalton Campos Roque – www.consciencial.org

O texto foi enviado por Vandilson Soares. Obrigado, querido!

domingo, 8 de abril de 2012

A conversão de Barrabás.

Recebi um email do amigo Vandilson Soares com esse vídeo e faço questão de compartilhar com vocês. Apreciem sem moderação!

domingo, 1 de abril de 2012

Sustentabilidade Espiritual

Por conta da nossa forma equivocada de exploração daquilo que a natureza nos proporciona, temos discutido intensamente, com muita necessidade, acerca da utilização sustentável dos recursos naturais, a chamada sustentabilidade que, segundo o dicionário, refere-se à qualidade ou condição daquilo que tem condições de se sustentar, se conservar ou se manter (1).
Descuidamos dos nossos recursos hídricos, desmatamos as nossas florestas, consumimos mais alimentos do que precisamos, enquanto outros não têm sequer o que comer. Por todos esses motivos, faz-se necessária essa preocupação atual com o futuro do nosso planeta. O Livro dos Espíritos, na sua terceira parte, toca no assunto quando fala nas leis de conservação e de destruição.
Concordando com a temática e, aproveitando a utilização do termo, acredito que há recursos - talvez os mais importantes deles – aos quais precisamos dar maior atenção a sua sustentação e conservação. São estes os chamados recursos espirituais. Assim, que tal falarmos sobre a sustentabilidade espiritual?
Sustentabilidade Espiritual significa a sua forma de manter, de conservar, depois de adquirida essa consciência, a sua interação espiritual com as forças universais onde estamos todos inseridos. Significa a sua interação inteligente com os potenciais divinos dos quais somos portadores, a percepção de que somos espíritos imortais que prosseguem e não um ser material que um dia deixará de existir.
Com a sustentabilidade espiritual vamos tratar dos recursos éticos e morais que forçosamente formarão os recursos espirituais. Recursos esses inesgotáveis, mas que precisam ser vivenciados com sabedoria, discernimento e muito trabalho para que possam ser aproveitados em toda a sua plenitude.
Estamos prontos para a espiritualidade? Claro que sim, afinal somos espíritos! Alguém pode responder: mas será que nos lembramos disso em todas as nossas atitudes diárias conosco, com o próximo e com Deus? Será que aproveitando essa compreensão espiritual da vida estamos buscando ser os homens de bem?
Neste momento de sérias modificações planetárias, precisamos estar despertos para a importância da educação moral, e não só da intelectual. Precisamos nos empenhar nos valores éticos de cada sociedade, mas, sobretudo, na ética cristã, termos que, apesar de bastante falados e debatidos desde sempre, necessariamente não são vivenciados como deveriam, diante de todos os exemplos dos grandes avatares que temos conhecimento nas mais diversas religiões.
Desde sempre se discute a melhor forma de nos melhorarmos e a resposta, forçosamente, remete-nos a lembrança da velha instrução do Delfos (2). O que fizemos até o momento? Muita coisa mudou, é bem verdade, mas acredito que podemos fazer muito mais do que foi feito até agora.
Ética e moral não são valores objetivos; variam de acordo com cada agrupamento social e momento histórico, mas quando se fala em espiritualidade, a coisa muda de figura, sendo imutável com o passar dos séculos. Sustentamos aquilo que acreditamos? Você acredita em Deus ou tem certeza de Deus? Acreditamos na frase do Mestre Nazareno: “vós sois deuses (3)”? O que falta para colocar toda essa potencialidade divina pra fora, ajudando a nós e aos que nos circundam, encarnados ou não?
Não devemos esquecer de que tudo o que discutimos deve ser embasado em requisitos inabaláveis, assim como a fé que deve deixar de ser cega para ser raciocinada, pelo simples fato que só o que é raciocinado sobrevive ao tempo e as intempéries.
Pensemos com carinho e esforcemo-nos para colocar em prática tudo o que falamos, a fim de não nos tornamos profetas das palavras mortas, esvaziadas no sentido e na significância.
Na sua passagem pela Terra, Jesus conduziu-nos por um caminho seguro de encontro à Divindade, sustentando a nossa espiritualidade nos valores integrais do ser, herdeiros de Deus. Acreditemos nisso hoje e sempre.
Sustentar o espírito é estar fortalecido em valores inquestionáveis em qualquer tempo e qualquer sociedade, encarando todos os problemas da matéria com a certeza do amanhã diferente e da regeneração que nos espera.
Uma proposta: trabalhemos a sustentabilidade espiritual em nós, e naqueles que estão ao nosso redor, de forma tranquila, segura e verdadeira e vamos ver, com o passar do tempo, que todas as outras formas de aproveitamento sustentável dos recursos naturais serão cumpridas por acréscimo. Aceitam o desafio?

Autor: Ivan Cézar
Revisão: Maíra Loiola

(1) Dicionário Priberam: www.priberam.pt
(2) Oráculo onde os gregos colocavam questões aos deuses
(3) João 10:34 / Salmo 82:6

domingo, 25 de março de 2012

A vida tem sentido?

Em qual sentido a rejeição da crença na existência de um deus implica a rejeição do ponto de vista de que a vida tem algum significado? Se este mundo foi criado por algum ser divino, com um determinado objetivo em mente, poder-se-ia divino. Se soubéssemos qual objetivo levou o ser divino a nos criar, saberíamos, então, qual seria o sentido de nossa vida para o nosso criador. Se aceitássemos o objetivo do nosso criador (embora fosse preciso explicar por que haveríamos de fazê-lo), poderíamos afirmar que conhecemos o significado da vida.

Quando rejeitamos a crença num deus, devemos abrir mão da ideia de que a vida neste planeta tem algum significado predeterminado. Vista como um todo, a vida não tem sentido. De acordo com as melhores teorias de que dispomos, a vida começou a partir de uma combinação aleatória de moléculas; depois, desenvolveu-se através de mutações casuais e da seleção natural. Tudo isso simplesmente aconteceu; não aconteceu em decorrência de nenhuma finalidade geral. Agora, porém, quando já resultou na existência de seres que preferem um estado de coisas a outro, pode ser possível que determinadas vidas tenham um significado. Neste sentido, os ateus podem encontrar significado na vida.

Retomemos a comparação entre a vida de um psicopata e a de uma pessoa mais normal. Por que a vida do psicopata não deveria ter sentido? Vimos que os psicopatas levam o seu egocentrismo ao ponto máximo: nada lhes interessa, nem as outras pessoas, nem o sucesso na vida prática, nem qualquer outra coisa do gênero. Por que motivo, porém, o prazer que suas vidas lhes proporcionam não é suficiente para que tenham sentido?

Muito poucos, dentre nós, seriam capazes de encontrar a felicidade ao decidir deliberadamente, desfrutar a vida sem se preocupar com ninguém ou coisa alguma. Os prazeres que então obteríamos pareceriam vazios, e logo nos fartaríamos deles. Procuramos um sentido para as nossas vidas que vá além dos nossos prazeres, e encontramos alegria e satisfação em fazer as coisas que consideramos dotadas de sentido. Se a nossa vida não tiver nenhum sentido além da nossa própria felicidade, é provável que, ao conseguirmos aquilo que julgamos necessário à nossa felicidade, constatemos que a felicidade em si continua a esquivar-se de nós.

Chamamos de “paradoxo do hedonismo” o fato de que as pessoas que procuram a felicidade quase nunca conseguem encontrá-la, ao passo que outros a encontram numa busca de objetivos totalmente diversos. Não se trata, por certo, de um paradoxo lógico, mas de um postulado sobre o modo pelo qual chegamos a ser felizes. A exemplo de outras generalizações sobre esse tema, falta-lhe confirmação empírica. Contudo, vai ao encontro das nossas observações cotidianas e é coerente com a nossa natureza de seres desenvolvidos e dotados de um propósito consciente. Os seres humanos sobrevivem e se reproduzem através da ação dotada de propósitos consciente. Alcançamos a felicidade e a satisfação ao lutarmos pelos nossos objetivos e concretizá-los. Em termos evolutivos, poderíamos dizer que a felicidade funciona com uma recompensa interna pelas nossas conquistas. Subjetivamente, vemos a concretização do objetivo (ou a progressão até ele) como uma razão para a felicidade. Portanto, a nossa própria felicidade é um subproduto do desejo de conseguir uma outra coisa, não sendo alcançada quando o objetivo em questão é a felicidade pela felicidade.

A vida do psicopata pode agora ser vista como desprovida de sentido de uma maneira que uma vida normal não é. Não tem sentido porque se volta para prazeres do momento, sem buscar alguma coisa a longo prazo, ou um objetivo mais abrangente. As vidas mais normais têm sentido porque são vividas na expectativa de objetivos mais amplos.

Tudo isso é especulativo. São coisas que podemos aceitar ou rejeitar na medida em que estejam de acordo com as nossas observações e introspecções. Minha próxima — e última — sugestão é ainda mais especulativa: para encontrarmos um significado duradouro para as nossas vidas, não basta ir além dos psicopatas que não têm projetos de vida ou compromissos a longo prazo; precisamos também ir além dos egoístas mais precavidos, que têm projetos a longo prazo, só que exclusivamente voltados para os seus interesses próprios. Esses egoístas podem encontrar sentido em suas vidas durante algum tempo, pois são movidos pelo objetivo de fomentar os seus interesses, mas, no fim das contas, que significado tem isso? Quando todos os nossos interesses já tiverem sido realizados, vamos nos sentar e ser felizes para sempre? Conseguiríamos ser felizes desse modo? Ou decidiríamos que o nosso objetivo ainda estava por consumar- se, que ainda precisaríamos fazer algumas coisas antes de sentar e desfrutar de nossas conquistas? A maior parte dos egoístas materialmente bem-sucedidos opta por esta última alternativa, fugindo assim à necessidade de admitir que não conseguem encontrar a felicidade vivendo em férias permanentes. Pessoas que se mataram de trabalhar para abrir seus pequenos negócios, dizendo a si mesmas que só o fariam até ganharem o suficiente para levar uma vida confortável, continuam trabalhando até muito tempo depois de terem concretizado o seu objetivo original. As suas “necessidades” materiais se expandem com rapidez suficiente para ficarem além dos seus rendimentos.

Os anos 80, a “década da ganância”, nos legaram inúmeros exemplos da natureza insaciável do desejo de riqueza. Em 1985, Dennis Levine era um bem-sucedido banqueiro de Wall Street, proprietário da empresa mais falada e de cresci mento mais rápido do lugar, Drexel Burnham Lambert. Levine, porém, não estava satisfeito:

Quando estava ganhando vinte mil dólares por ano, achei que era capaz de ganhar cem mil. Quando já ganhava cem mil por ano, achei que poderia ganhar duzentos mil. Quando estava ganhando um milhão de dólares por ano, achei que poderia ganhar três milhões. Havia sempre alguém num degrau mais alto que o meu, e eu não conseguia parar de pensar: será que ele é realmente duas vezes melhor do que eu?

Levine decidiu entrar em ação e conseguiu que alguns amigos de outras empresas de Wall Street lhe passassem informações confidenciais que lhe permitiriam obter lucros através da compra de ações de empresas que estavam prestes a abrir falência. Graças a esse método, Levine teve um lucro adicional de onze milhões de dólares acima do que ganhava entre salários e gratificações. Também provocou a sua própria ruína e passou um bom tempo na prisão. Não é este, porém, o ponto relevante para nós. Sem dúvida, muitos dos que usam informações confidenciais para ganhar milhões de dólares não são apanhados pela polícia. O que é menos certo, contudo, é que realmente encontrem satisfação e felicidade pelo fato de terem mais dinheiro.

Agora começamos a ver onde entra a ética no problema de se levar uma vida com sentido. Se estamos atrás de um objetivo mais amplo do que os nossos interesses pessoais, alguma coisa que nos permita ver as nossas vidas como existências dotadas de uma importância que extrapola os estreitos limites dos nossos estados conscientes, uma solução óbvia é adotar o ponto de vista ético. Este, como já vimos, exige que ultrapassemos um ponto de vista pessoal e que assumamos o ponto de vista de um espectador imparcial. Portanto, ver as coisas eticamente é uma maneira de transcender as nossas preocupações subjetivas e de nos identificar com o ponto de vista mais objetivo possível — nas palavras de Sidgwick, com “o ponto de vista do universo”.

O ponto de vista do universo é um ponto de vista elevado. No ar rarefeito que o envolve, podemos ser levados a discorrer, como faz Kant, sobre o ponto de vista moral, humilhando “inevitavelmente” todos os que comparam a sua natureza limitada com ele. Não pretendo sugerir nada de tão grandioso. No início deste capítulo, ao rejeitar o argumento apresentado por Thomas Nagel em defesa da racionalidade do altruísmo, afirmei não existir nada de irracional em se preocupar com a qualidade da própria existência sem se preocupar com a qualidade da existência de outros indivíduos. Não voltando a esta colocação, quero agora sugerir que, no sentido amplo que inclui a consciência de si mesmo e a reflexão sobre a natureza e a finalidade da nossa própria existência, a racionalidade pode nos levar a preocupações mais amplas do que a qualidade da nossa própria existência; o processo, porém, não é necessário, e os que dele não participam — ou que, ao participarem, não o seguem até o ponto de vista ético — não são irracionais, nem incorrem em erro. Até onde sei, os psicopatas podem simples mente ser incapazes de alcançar tanta felicidade preocupando-se com os outros, quanto lhes é dado alcançar através da prática de atos anti-sociais. Para outras pessoas, colecionar selos é uma forma totalmente adequada de dar um objetivo às suas vidas. Não há, nisso, nada de irracional, mas, repetindo, existem outros que deixam de colecionar selos quando se tornam mais conscientes de sua situação no mundo e mais contemplativos no que diz respeito aos seus objetivos. A este terceiro grupo, o ponto de vista ético oferece um significado e um objetivo na vida que nunca são abandonados.

(Pelo menos, não se pode abandonar o ponto de vista ético até que todos os deveres éticos tenham sido cumpridos. Se essa utopia fosse alguma vez alcançada, nossa natureza fina lista poderia muito bem deixar-nos insatisfeitos, tanto quanto os egoístas talvez se sintam insatisfeitos quando já têm tudo de que necessitam para serem felizes. Não há nada de paradoxal nisto, pois não devemos esperar que a evolução nos tenha provido, por antecipação, da capacidade de desfrutar de uma situação que nunca anteriormente ocorreu. Isso também não vai constituir um problema prático no futuro próximo.)

A pergunta “Por que agir moralmente?” não pode receber uma resposta que ofereça a todos razões imperiosas para a prática de atos morais, O comportamento eticamente indefensável não é sempre irracional. E provável que sempre venhamos a precisar que as sanções legais e a pressão social nos dêem razões adicionais contra graves violações dos padrões éticos. Por outro lado, aqueles cuja reflexão é suficiente para levá-los a fazer a pergunta que discutimos ao longo deste capítulo são também os que têm maiores probabilidades de compreender as razões que podem ser oferecidas para a adoção do ponto de vista ético.

SINGER, Peter. Por que agir moralmente?. In: ____. Ética prática. São Paulo: Martins Fontes. 2006. p. 348 – 353

domingo, 18 de março de 2012

Especial religiões II: Taoísmo

Tao é, ao mesmo tempo, o caminho, o caminhante e o ato de caminhar. Filosoficamente, pode ser interpretado como o Absoluto. O Taoísmo é uma tradição espiritual que propõe o retorno do homem a um estado de consciência e vida plena, ao Tao.

Os meios para o retorno ao Tao englobam as artes (Su), a lei (Fa) e o caminho (Tao). As artes procuram restaurar o equilíbrio das energias da pessoa através de conhecimentos de saúde, de oráculos, de destino, de leitura da natureza ou do homem. O Fa é o conjunto de métodos místicos que restauram a ordem, a organização, a lei interior e exterior através da força espiritual. E o Tao, como meio, tem na meditação o caminho espiritual por excelência.

O Taoísmo é uma tradição espiritual milenar de origem chinesa. O ensinamento filosófico e a prática espiritual (meditação, alquimia e rituais), são praticados na Sociedade Taoísta do Brasil, oficialmente ligada e reconhecida pela Sociedade Taoísta da China. Fundada em 1990 pelo sacerdote Wu Jyh Cherng, que trouxe o puro conhecimento da tradição, adquirido com os mais representativos mestres iluminados vivos.

O Taoísmo é constituído por grandes ramificações e seus conhecimentos, manifestados através de Escolas Taoístas poderiam, de modo geral, ser classificados segundo cinco vertentes:

- a primeira delas se chama Dan Ting, que significa literalmente Caldeirão e Elixir; é a que nós chamamos no Ocidente de A Escola da Alquimia;

- a segunda se chama Fu Lu, Fu significa literalmente Correspondência, e Lu quer dizer Ordenar. Ou seja, é A Escola da Correspondência e da Ordenação, refere-se às Escola Ritualística e da Lei Cósmica;

- a terceira se chama Jin Dien, que literalmente significa Textos Clássicos. São escolas que enfatizam mais os estudos clássicos, podem ser chamadas de Escolas Filosóficas ou Escolas de Estudos filosóficos do Taoísmo;

- a quarta se chama Ji San, que significa Acumulação da Bondade: aplica os conhecimentos taoístas em benefício da sociedade, da pessoa, da vida; podemos dizer que é a escola taoísta voltada para as práticas taoístas na vida quotidiana;

- e a última, se chama Dzan Yen, que significa Oráculos e Experiências ou seja, I Ching, Astrologia, Artes Marciais, Acupuntura, incluindo conhecimentos de cura através da ervas da medicina Taoísta e diversos trabalhos energéticos.

Fonte: http://www.amcbr.com.br/Confucionismo.pdf